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docarlos



Segunda-feira, 20.04.15

DIVISÃO DO TRABALHO v/s DEFINIÇÃO DE CLASSE

                       Karl Marx faz muitas comparações entre materialismo e religião, para demonstrar a diferença entre a recolha de informação, ideia e acção na natureza; com ideia, acção na natureza e recolha de informação, é tempo de comparar o que dizem os nossos “pensadores” actuais, com os preceitos religiosos. 
                      A leitura do Antigo Testamento, leva-nos até à história do povo de Israel, desde que lida ou mesmo estudada e compreendida dialecticamente, com o começo do estudo no Génesis (após o Capitulo 11, antes, é por ouvir contar) e terminando em Malaquias (o Novo Testamento, está fora de questão por falsificação, por vezes grosseira da história). Esta leitura e história de uma Nação, é no entanto, lida em partes específicas, previamente estudadas, e com aproveitamento ideológico oportunistico, por parte das diversas confissões cristãs, retirando dela “ensinamentos” de alienação dos seus fiéis.
                     O mesmo parece passar-se com os estudiosos e pensadores dos meios materialistas, marxistas, estudando o “O Capital” para dele, parece, só extraírem as passagens mais convenientes às suas teses, principalmente as que definem as classes sociais. Tese, que procuram envolver numa acção de vanguarda, produtores e complementares de serviços de organização de exploração pelo Capital (assalariados não produtores). Uma acção vanguardista, que torna, não impossível, mas de sobrevivência impossível, uma Revolução de caracter socialista, ou seja, uma revolução onde se possa fazer corresponder a produção social do capitalismo, a uma distribuição igualmente social, que no regime, é de apropriação privada. Transformam igualmente, a estrutura capitalista em sujeito da história, passando a classe produtora a meio manobrável para execução de transformação e aproveitamento da produção, retirando assim todo o protagonismo à verdadeira classe produtora: a classe operária. Ao retirar o lugar de sujeito ao produtor, a classe operária, transformando-a no objecto da sua ganância, a nova leitura do “O Capital”, dá um lugar secundário à Classe Operária, colocando-a ao nível dos restantes proletários e inviabilizando a Revolução, por ausência de sujeito produtor, que mantenha a sociedade. Notem esta preciosidade de André Guimarães Augusto, num estudo sobre sujeito histórico.

                      «Resumindo, o sujeito é aquele ente que se determina como tal na sua relação processual activa com o objecto. Nessa relação, o sujeito se objectifica por meio de sua actividade e subjectiva seu objecto em um processo contínuo. A determinação do sujeito é a de criador de novas objectividades; e, ao mesmo tempo, aquele que nega o objecto como “puro objecto” ao transformá-lo, ao se apropriar dele como seu objecto. Tal sujeito é o homem como ser genérico, social.»
Para logo de seguida….
                     «De todo modo, ao observar a inversão sujeito-objecto na produção capitalista, restaria ao trabalhador a mera posição de objecto do capital. Este, portanto, seria o verdadeiro sujeito histórico.»

                     Tudo isto, porque Karl Marx escreve:
                     “Do exposto, infere-se que todo capitalista individual, assim como o conjunto dos capitalistas de todo ramo particular de produção, participa da exploração da totalidade da classe trabalhadora pela totalidade do capital e do grau dessa exploração, não só por solidariedade geral de classe, mas também por interesse económico directo” (Marx, 2008, p.255).

                     Por este enunciado, uma corrente mais recente de seguidores de Marx, presume e interpreta, que toda a classe capitalista de um determinado ramo de produção, beneficia da exploração de todos os trabalhadores a ela ligados. No entanto, nesta interpretação há contradições anti dialécticas e que desdizem o próprio filósofo/economista (assim classifico o grande estudioso e pensador do século XIX), aliás, como o demonstra o próprio autor já citado, A.G.A. do estudo sobre o assunto, nesta sua passagem:

«Para além disso, como apontado anteriormente, o trabalhador produtivo é identificado por Marx como aquele que produz mais-valor independente do conteúdo de sua actividade — e não poderia ser de outra forma, uma vez que o trabalho assalariado é trabalho abstracto e é esta última determinação do trabalho que gera valor e, consequentemente, o valor em processo de auto expansão, capital.»

                      Passagem que, ela própria, é uma contradição em si. Correcta, até «…. conteúdo da sua actividade», para depois ser a sua própria negação. Mas vejamos, o que se passa num processo produtivo, de um determinado produto porque, só este processo, gera mais-valia, lucro, Capital, tudo o mais, é abstracto, ilusão de óptica, chamemos-lhe assim.
                      A natureza, não cobra sobre nenhum bem, seja matéria inanimada ou viva, mas como as coisas surgem no consumo com valor, é porque algo lhe dá esse valor, seja o de uso ou de troca: esse valor, é o trabalho, o esforço despendido para a transformação, de que o Homem se faz pagar, quer individualmente, quer como ser colectivo.
                      A soma de toda a paga do trabalho ao longo do processo, nas diversas etapas, desde a extracção à mãe terra, até ao acabamento final com deslocações, dá um valor a um determinado produto, mas, a exploração de que o produtor é vítima, é, directamente em cada etapa pelo capitalista seu proprietário, o que significa, que este, só beneficia da exploração a montante. Resumindo, p. ex., o capitalista da Mina, só beneficia da exploração dos operários extractores; o da Fundição e laminação, já beneficia dos extractores e dos ferreiros da sua Fundição; o da Serralharia, dos seus serralheiros, dos da Fundição e dos da Mina; e por diante, até ao negociante que monta as estruturas em ferro para o consumidor.
                     O produto, conforme cada etapa, vai ganhando um valor, o valor que no final se pode chamar de uso, mas que só é adquirido, mediante o valor que os capitalistas conseguirem da exploração dos seus operários, que na generalidade, é abaixo do valor de uso, embora em tempos de liberalismo económico e de cartelismo, possa ser superior: seja, o valor de troca, por influência das flutuações do mercado, dentro do ramo, assim como daquilo que têm de dividir com os capitalistas do sector não produtivo, onde se integram, todos os assalariados não produtivos. Nenhum assalariado não produtivo, cria mais-valia, nem mesmo um valor de uso; quanto muito, cria um valor de troca, ajuda à divisão da mais-valia pelos diversos capitalistas, e influência o consumo de todos: produtores, capitalistas e deles próprios. É explorado, por baixos salários, mas não por roubo de valor produzido, pois nisso, também beneficia do sobre produto realizado pelo operário.
                     Juntar no mesmo “pote” histórico, a classe produtora e a não produtora assalariada, para os levar a fazer a revolução socialista, como força una de vanguarda, é um erro oportunista, porque embora possível para o acto em si, torna depois impossível a sobrevivência da Revolução (Cuba e Portugal de 75, que já tinha uma CO considerável, mas insuficiente e ideologicamente fraca, são exemplos). Oportunista, porque um estudioso do marxismo, do materialismo histórico, um materialista dialéctico, tem a obrigação de saber, que uma passagem qualitativa, só se dará, quando estiverem reunidas as condições quantitativas que a isso conduzem, o que em termos sociais significa, que é a massiva produção social, que obriga à mudança das relações de produção, seja, a classe produtora, tem que ter a capacidade produtiva para o país em questão e, utilizar essa capacidade para a distribuir de maneira social.
                     Sem uma CO suficiente, o que vamos distribuir: os papéis bancários? Colocar os pratos vazios nas mesas dos restaurantes?, aliás, esta última questão, é o exemplo perfeito do que não deve ser feito em relação à consideração de colocar todos os proletários ao mesmo nível revolucionário. Sem cozinheiros e ajudantes de cozinha, nunca haveria trabalho no atendimento ao público nos restaurantes.
                       Esta questão, numa altura em que o Mundo tanto avançou em termos científicos, técnicos e populacionais, trás consigo uma série de outras questões pertinentes, com a mais flagrante: se agora considerarmos que não existe CO em número suficiente, como é possível em 1917, Lenine e o Partido bolchevique, terem feito a Revolução?
                      Duas respostas: uma, a revolução reuniu condições ideológicas devido ao caos que se instalaram em termos governativo e económicos na Rússia. E a segunda, que Lenine viu e bem que ainda não estavam reunidas as condições económicas e as sociais daí inerentes, para levar avante as transformações necessárias, voltando atrás, com uma nova politica económica, e poder desenvolver o país, tanto económica como ideologicamente e, só a meados da década de 20s, Estaline chegou à conclusão de que estariam reunidas as condições para voltar à politica económica socialista (e estariam?). Na Rússia é duvidoso, mas a Crimeia e a Ucrânia, tinham uma fortíssima classe produtora proletarizada na agricultura, o que poderá ter colmatado as falhas na Rússia.
               
                     E nos tempos actuais?
                     Nos países desenvolvidos, a introdução da máquina, da informática, do “saber como” na produção, aumentou esta, mas reduziu os intervenientes em termos percentuais, atirando a CO para o desemprego e para a sua extinção como classe produtora de bens e mais-valia, criando em simultâneo, classes não produtoras, mas de serviços e comerciantes. Este aumento da produção, reduziu os custos e consequentemente o valor de troca, mas em termos de valor de uso, ele mantêm-se, originando assim um aumento da acumulação do Capital, com uma diminuição da taxa de lucro. 
                      Se o Planeta não tivesse a herança que os nossos antepassados medievais nos deixaram e a burguesia mantem, de uma divisão administrativa, independente, e fosse uno, poder-se-ia avançar para a Revolução. O país bem poderia ser um paraíso turístico, porque os camaradas operários coreanos, chineses, indianos, da Indonésia, ou os proletários agrícolas dos EUA, da Espanha ou da Argentina, nos sustentariam, a troco dos nossos serviços, mas assim divididos, não resta outra solução, se não criar as condições para a independência nacional, em termo económicos, e, para essa solução, não estão reunidas as tais condições de produção e, em consequência, as ideológicas.
                     Fazer a Revolução, tomar o poder politico e económico, transformar a economia. Construir mais fábricas (principalmente de meios de produção), aumentar a frota pesqueira, planear a produção, dar pleno emprego com a ajuda da redução do tempo de trabalho, e tudo o que correspondesse a adaptação de uma economia para o povo trabalhador, num mundo que nos rodeia, de burguesia, poder financeiro, de controlo da economia mundial por meia dúzia de “donos”, quem nos fornecia a matéria-prima e a quem vendíamos os excedentes? Com quem podíamos contar, se o proletariado não produtor, sente a miséria, mas não o roubo do seu produto? Terão esses proletários, a noção de que é necessário, mesmo numa economia socialista, produzir sobre produto, para poder alimentar, vestir e calçar, educar, sustentar a Saúde pública e a Justiça, transportar pessoas e mercadorias e tudo o mais que faz rolar um país? 
                      Não. É utópico, pensar numa Revolução de cariz socialista, sem as condições mínimas, económicas e ideológicas, não antes, mas pós tomada do poder. O proletariado no seu conjunto, não tem condições para governar (pode ter para o assalto ao poder, mais não). Sem uma classe operária que sinta na pele a exploração, capaz de sustentar a parte não produtiva, pronta a distribuir os seus produtos excedentes pelos restantes proletários, não conseguimos. É necessário uma classe capaz de produzir o suficiente para o equilíbrio da balança comercial com o exterior e, essa, só pode ser conseguida com um desenvolvimento capitalista, sustentado e controlado, de concorrência estimuladora. Com capitalistas capazes de manter as portas abertas aos seus congéneres estrangeiros. Com um Partido, que entretanto, ajude a CO a tomar consciência, de que tem de se preparar para a tomada do poder, quando o seu quantitativo material e ideológico, quer no número de elementos, produção e restante proletariado, na luta com o seu contrário Capital, atingir a saturação.
                        Não se trata aqui, de fazer a apologia da conciliação de classes. Essa é impossível em termos práticos (só possível nos meios da chamada social democracia e na cabeça dos ignorantes). Trata-se dos conscientes da sua posição de classe, terem a noção da realidade objectiva, das possibilidades reais de êxito de uma Revolução. De saberem, não serem utilizados, mas utilizarem eles os capitalistas. Avançar para a Revolução, sem conhecimento do futuro, é aventureirismo ou oportunismo, com o intuito de trazer de volta as forças mais negras da exploração do Homem pelo homem. Portugal, e muitos mais países, recuaram em possibilidades de fazer a revolução com êxito. Não tem CO, nem proletariado com formação ideológica para tal. É necessário recomeçar, e agora, até com muitas mais dificuldades, devido à rápida introdução de meios técnicos que substituem o homem, possibilidades de crédito ao consumo que dá acesso a bens de aburguesamento e a uma intensa propaganda ideológica burguesa.
                      
                        Marx e Engels, ensinaram-nos que o materialismo histórico, cientifico, tem uma sequência lógica, com base na economia, nas relações de produção que vão surgindo conforme o avanço tecnológico dos meios de produção: comuna primitiva » esclavagismo » feudalismo » capitalismo » socialismo/comunismo. Que essas mudanças, só foram conseguidas ou serão, quando a sociedade que finda deixa de corresponder às necessidades das classes exploradas: em Portugal e noutros países, chamados desenvolvidos, os novos meios e deslocação das classes produtoras, deixou de haver condições para a mudança. Temos de criar essas condições; sem isso, uma aventura revolucionária, estará condenada ao fracasso.
                        O sujeito da História, continua a ser o produtor. Qualquer tentativa de colocar o proletariado não produtor e o capital como tal, transformando a classe operária como sujeito subjectivado, é uma falsificação grosseira e oportunista da História, com intuitos de impedir ou derrotar a Revolução que transformará as sociedades a caminho da libertação, igualdade, felicidade e desenvolvimento material e moral do Homem.

 
 

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por docarlos.blogs.sapo.pt às 23:25

Domingo, 12.04.15

DEFENIÇÕES SOCIAIS, HISTÓRICAS E CLASSISTAS DO MARXISMO

                       Resposta estrutural sobre definição marxista do materialismo histórico.

                       De uma maneira simplificada, não muito longa, precisa, dialéctica, portanto, fundamentada na ciência histórica, tentarei responder em simultâneo, a dois navegantes do facebook, justificando assim, aquilo que considero ser a interpretação correcta do desenvolvimento histórico, agora que a sociedade nos países mais desenvolvidos, se modificou radicalmente em relação à dos finais do século XIX.

                       Diz-nos o materialismo histórico, que a evolução do Homem e das sociedades, está dependente da evolução dos meios de produção e, das relações daí decorrentes. Diz-nos Karl Marx, que a separação da sociedade em classes, se deve à apropriação por alguns, do trabalho de outros, ou seja, que há um período da jornada de trabalho, em que o trabalhador ou produtor, não recebe a paga da sua produção, e que essa parte, é então posta no mercado, sendo o valor recebido, que é igual ao que é pago ao produtor, utilizado em beneficio exclusivo do capitalista (nos tempos da escravatura e do servilismo, era identico): é o chamado lucro ou, mais-valia.
                       Isto quer dizer, que existem profissões, que já existiam no século XIX e outras que foram e vão aparecendo, que nada acrescentam, quer material, quer intelectualmente, aos produtos transácionáveis de consumo, simples adorno ou coleccionáveis. Profissões essas, que vivem da parte que o capitalista tem de ceder da mais valia criada pelo produtor, sobressaindo delas o comércio, banca, saúde, educação e, toda a questão cultural que serve de elienação às próprias massas, a que se pode chamar, cultura de consumo. Para além do atrás descrito, que faz parte do dia a dia e, tido como necessário, a mais-valia em conjunto com os impostos directos e indirectos, pagos por todos, ainda sustenta os politicos, as Forças Armadas, a Segurança Interna e toda uma máquina que serve essencialmente, para manietar, reprimir e esmagar os trabalhadores de todos os sectores (parece mentira, mas é verdade: o trabalho não pago e o pago, paga a repressão sobre os próprios pagantes).

                       Portanto, pode-se e deve-se do ponto de vista materialista, dialéctico, partir da suposição que tudo gira à volta da economia. Que sem politica económica, não teriam existido estádios sociais, desenvolvimento, classes e toda a estrutura politica, social, cultural e respectiva alienação daí decorrente. Resumindo, se queremos mudar tudo isto, temos de mudar as relações de produção, fazendo corresponder a destribuição à forma social produtiva: Revolução Socialista. As revoluções, em todos os periodos históricos, são a prova cabal de que é obrigatório mudar o sistema económico, para que haja progresso social.

                       Mas......
                       ......vivemos num mundo dividido, e com diversos estádios civilizacionais. Como o planeta, não é país único, onde a Classe Operária com o seu Partido de vanguarda, comunista, marxista, conquiste o poder, arrastando consigo toda uma massa de trabalhadores proletarizados, que imponham a Ditadura do Proletariado até acabar com as classes sociais, uma classe operária global capaz de sustentar todo um planeta, temos de nos cingir às divisões a que as classes poderosas do antigamente e de agora, nos mantêm. Uma dessas divisões, chama-se Portugal (e aquilo que é valido para Portugal, é-o para praticamente todos os países da antiga Europa capitalista, América do Norte e alguns asiáticos).
                       Se o mundo vive do que é produzido pelos trabalhadores industriais, operariado agricola e distribuido pelos proletários dos transportes, onde estão eles em Portugal? Onde estão as grandes massas de operariado industrial? Não existem. (não existiam no Verão Quente de 75, muito menos agora).
                       Então, do que sobrevive o país? Do comércio essencialmente, que transaciona o importado, porque cá não se fabrica.
                       Onde está a classe operária? Nas pequenas unidades industriais, dispersas de Norte a Sul, e nalgumas poucas médias concentrações.
                       E o proletariado agricola? Não existe, senão sazonalmente e no Sul, pois no Norte, mantem-se a pequena parcela de subsistência.
                       E os trabalhadores dos transportes de mercadorias? Andam por aí, acarretando essêncialmente produtos importados, ou seja, acrescentando valor do trabalho, que vai encher os bolsos dos capitalistas estrangeiros.
                       Vamos fazer uma Revolução, com quem? Com uma classe de assalariados do comércio e FPs, e trazer uma classe operária diminuta atrás, ou seja, ao contrário do que deveria ser? O maior contigente proletário do país, vive das mais-valias operárias; não detem o poder da economia. O Partido Comunista, até pode ser pequeno; desde que seja constituido por revolucionários armados de teoria não interessa o número, mas o que realmente interessa, é o número de operários que movimenta, e que terão em si a dificil tarefa de sustentar o país, pelo menos no mais possivel, de maneira a enfrentar o monstro internacional que se vai abater sobre Portugal.
                       Esta observação, é a geral, nacional, mas temos ainda a sectorial, cuja situação estrutural, torna uma revolução de cariz socialista imediata, impossivel: vejamos.
                       Vão-se pôr os trabalhadores a controlar ou intervencionar, uma unidade fabril com 50 operários, ou menos? Isso foi o que a estrema esquerda fez em 1975, deitando a perder a correcta intervenção estatal e dos trabalhadores, nas grandes empresas.
                       As PMEs produtivas, estão hoje grandemente viradas para a exportação de artigos de luxo ou alimentar de qualidade. Se as intervencionarmos, sofrerão de imediato boicotes e, a falência é certa.
                       A maioria esmagadora das PMEs nacionais, têm lucros tão baixos, que não têm a minima possibilidade de crescer, de se tornarem em grandes empresas, muito menos em monopolios, tendo de fazer grandes esforços para não serem engolidas. Os seus interesses, estão de tal maneira ligados e próximos dos dos seus operários, que qualquer intervenção mais profunda nos grandes monopólios, será muito mais benéfico para elas, do que um mercado liberal.

                       Mas façamos a Revolução.
                       Sem produção que alimente as necessidades internas, pelo menos até ao limite que possa ser superavel pelas exportações (equilibrio da balança), não há revolução socialista, que resista.
                       Precisamos urgentemente, de meios de produção, industria pesada, fabrico de máquinas, pois é por aí que se tem de começar a destribuição social; ou querem manter o mercado como está e dar salários, para comprar "ar"? (foi assim que morreu a URSS). Quem nos fornece numa Revolução isolada? Tem que se começar por oferecer serviços baratos e em condições, para que o dinheiro renda nos bolsos e se possa adquirir importados não de 1ª necessidade, porque estes, têm obrigatoriamente de ser fabricados dentro de portas.
                       Quais os países socialistas, com os quais podemos contar em termos de ajuda? Cuba? Vietnam?...., esses são mais pobres do que nós. Deles, só a solidariedade ou algum técnico. China? Não, ainda estão numa revolução democratica popular, no meu entender, porque geralmente acusam de ser capitalismo selvagem. Já não existe a União Sovietica, mesmo aleijada.
                       Ideológicamente, estamos preparados?
                      Temos um PC, dos melhores do mundo, muito activo, com análises correctas. Com muitos militantes de grande militância, mas pouca bagagem teórica para o tamanho que tem, devido à entrada livre após Abril. Se não fosse a grande formação moral dos mais bem formados ideológicamente, estaria confirmada a mentira muitas vezes divulgada, da falta de democracia interna. Aliás, é essa alta formação ideológica de alguns e a influência natural dos marxistas nas decisões colectivas, que parece tirar democracia às discussões internas. Só a militância, participação e ausência de ambição pessoal  dos seus militantes, mantêm inalterada a coesão interna.
                       E como se sente um povo proletário, que não produz? Terá força animica para a tomada do poder, quando o seu mal, são apenas salários baixos e não roubo de produção? Será que com uma burguesia "estúpida", que nunca soube tomar o seu lugar, mas que aprendeu com os seus algozes nobres e clericais o conservadorismo explorador, ao ponto de ter uma politica fascista sem que objectivamente tivesse disso necessidade, temos um inimigo que sirva de alvo a abater? Será que a consciencialização religiosa cristã da maioria esmagadora do nosso povo, deixará campo ao materialismo revolucionário? 
                      Onde está um ensino, verdadeiramente livre de alienação, que prepare os nossos jovens, para uma vida diferente? Não existe. Todos saem da escola, com ideias fixas no individualismo, egoísmo, no atropelo dos outros, na lei do mais forte.
                      Qual a solução: Revolução Socialista? Esperar pela auto-queda do capitalismo? Ou fazer uma Revolução Democratica Popular? 
                      Ou ainda, como pretagoniza uma corrente marxista, nada disto, e como primeira etape de uma Revolução, consciencializar as massas?
                      Pois bem: não há condições para a Revolução Socialista, como economicamente o demonstrei acima. Se esperarmos pela auto-queda do capitalismo, adormecemos, porque se é uma verdade que cairá sozinho, no entanto, quando isso acontecer, não restará nada em que pegar para fazer avançar a sociedade: seria uma regressão.
                      Consciencializar as massas!, como? Cursos intensivos de marxismo? Sessões de esclarecimento em tudo o que é freguesia, fabrica, etc? Trazer todos os proletários ao Partido marxista? Bater de porta em porta, como fazem algumas confissões religiosas? Não!
                      As massa só se consciencializam na luta, na preparação da Revolução Socialista. antes, terá de se arranjar condições para isso, e a única possivel, é uma Revolução Democratica Popular, que é como quem diz, uma tomado do poder por todas as camadas sociais exploradas pelo grande Capital e, que detêm em seu poder, os meios económicos da produção, que em Portugal e no Ocidente em geral, são os operários, claro, mais tudo o que vende a sua força de trabalho e, todos aqueles que estão ligados a este proletariado, que de uma maneira geral, pelo menos nos paises mais pobres, são a pequena burguesia industrial, camponesa e comerciante.
                     A querer a Revolução já, é estar a condenar o país a mais outro tanto de sacrificio, como ficou provado em Novembro de 75, quando os MRPP, UDP/PCPr e outros m-l, deram um passo maior do que a perna, imediatamente aplaudido pella burguesia, que assim teve a chance de provar aos incautos, que era impossivel viver com os comunistas, que a única coisa que sabiam fazer era, destruir, roubar a santa propriedade privada.
                     É possivel tomar o poder, em conjunto com diversas classes sociais. É possivel controlar os meios financeiros, e as grandes empresas industriais e propriedades agricolas, mas nunca controlar as pequenas empresas industriais, agricolas ou comerciais. Temos de ser realistas, nunca aventureiristas ou espectantes como o Bocage, que andava de pano às costas à espera da última moda.

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por docarlos.blogs.sapo.pt às 15:15

Sábado, 04.04.15

LIMPANDO O NEO-OPORTUNISMO OU, COMO A CLASSE OPERÁRIA NÃO ESTÁ A DESAPARECER

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                        A Classe Operária transformou-se e deslocou-se, mas não desapareceu nem está a desaparecer.

                       Nos países ocidentais, depois da explosão industrial do pós-guerra, esta classe, produtora de mais-valia (industrial, agrícola e pescas, e transportadora, só e apenas (comércio, serviços públicos privados e estatais e outros indiferenciados, vendedores de força de trabalho, proletarizados mas não produtores, não são produtores de mais-valia), transformou-se em alta especialização, ganhando estatuto social, passando a integrar um grupo de classe média-baixa, culturalmente  dominada pela ideologia burguesa. Por sua vez, o seu número foi-se reduzindo até ao limite do possível, e continua a diminuir, devido à introdução de novas tecnologias, sendo atirada para o desemprego e para outras colocações, que não produtivas.
                       Por sua vez, a questão reprodutora do operário, onde o filho substituía o pai, continuando carne-para-canhão do capitalista, é hoje sempre a um nível superior (o avô operário, tem filho técnico e por sua vez, neto doutor), a mesma carne-para-canhão, mas como especializado na produção dos meios de produção, como desenhador ou eng. informático, como financeiro ou politico. Seja, o proletário de hoje, no ocidente, é algo que já está entre o operário produtor em si, e o patrão capitalista, fazendo parte da engrenagem que o tritura e ao verdadeiro operário.
                       Então, onde está a Classe Operária, que os esquerdistas críticos do revisionismo, elevam aos céus da vanguarda revolucionária? Deslocou-se.
                       O computador, equivalente à máquina a vapor do século XIX que serviu de estudo a Marx, não mais é fabricado em massa e seccionalmente na Europa ou na América do Norte: é fabricado algures na Ásia, Índia, Norte de África ou América Latina, onde o preço do trabalho, está a níveis da 1ª metade do século XX; e só ocasionalmente, em alguns países do Sul da Europa. É aí, que está a verdadeira massa de operários, a Classe Operária de vanguarda, cujo Partido Comunista, marxista, tem de agarrar para fazer valer a revolução socialista.
                       Em Portugal, embora com alguns núcleos ainda bastante activos: região do Vale do Ave, S. João da Madeira ou o caso mais flagrante da Autoeuropa, a Classe Operária, a tal simbolo dos esquerdistas, vanguardista e pilar de um Partido Comunista, não existe mais. Portugal, tornou-se, e cada vez mais, num país de serviços de onde sobressai a restauração e hotelaria, ou seja, um paraíso turistico para capitalista ou operariado classista do Norte da Europa. As poucas grandes unidades fabris existentes, são multinacionais (um parêntesis para a Autoeuropa, que é o símbolo daquilo que não deveria existir em nenhum país. Detem a produção de cerca de 3% do PIB, mas por cá só ficam os salários e mais 2 000 postos de trabalho dependentes quase a 100 %, ou seja, em caso de fecho, o que acontecerá quando em Singapura, Marrocos ou Litiuania fizerem carros mais baratos, arrastará a miséria a 5 000 famílias, o que em média dará 15 000 pessoas. A agravar a situação, os impostos pagos por esta fábrica, são menores do que para empresários portugueses, por beneficiarem de incentivos fiscais. Também os carros, são exportados quase na totalidade, não servindo os portugueses).
                      Pergunto agora aqueles que atacam o PCP, tratando este partido de revisionista, de se acomodar ao aburguesamento da sociedade, o que se pode fazer, em termos marxistas, de materialismo histórico, com uma Classe Operária quase inesistente em termos quantitativos?
                      Pergunto a estes esquerdistas, que têm a mania de serem marxistas, se é o PCP que é oportunista por acomodação à situação, ou se são eles que sim, serão ou não os oportunistas (neo-oportunistas), que aproveitando-se do marxismo, sem leninismo, ou seja, dos clássicos marxistas de frases feitas, para fazer cair em descredito o Partido.
                      Pergunto a estes neo-oportunistas, que chegam a cúmulo de afirmar que «não é por existirem classes, que há luta de classes» (https://falaferreira.files.wordpress.com/2015/03/oportunismo-e-situacao-concreta1.pdf), como se poderá fazer a Revolução Socialista, sem Classe Operária em número suficiente, não em soma de individuos, mas sim em quantidade de mais-valia produzida, ou seja, uma Classe Operária que domine e influencie a economia nacional.
                      Não. Sem produtores, que criem mais-valia em quantidade suficiente para manter a independência nacional, não se pode fazer a Revolução Socialista. Esta, não se faz com empregados bancários, funcionários públicos, vendedores de balcão, trabalhadores de Call Centre, trabalhadores de limpezas, etc. Esses, não acrestam mais valia. Com esses, um país não vive. Eles apenas ajudam a viver, embora com serviços muito importantes.
                      A Revolução Socialista, pode ser feita sim, mas nos países onde a Classe Operária é na realidade dominante. Em todos os países da Europa, antiga capitalista, esta é impossivel para já. Tem de ser por outro caminho: pelo de uma revolução democratica popular, onde o povo tome o controlo da economia e do poder, mas que seja numa grande aliança tactica entre todos os que detêm a economia, ou seja, os trabalhadores proletarizados, os PMEs (que têm ao seu serviço a maior força operária do país), os FPs, enfim, aqueles que ainda vão mexendo e sustentam o país.
                      O PCP não está acomodado ao sistema. O PCP, está integrado no sistema, mas com objectivos bem definidos: o Socialismo e o Comunismo. O PCP, quer uma democracia avançada, onde o povo, todo, sem sectarismos, controle a economia e o sistema político, preparando a Revolução que colocará a economia ao serviço dos produtores.
                      O capitalismo, chegado a certo ponto do seu desenvolvimento, coloca o Estado ao seu serviço. Transforma o capitalismo privado, liberal, sem controlo, em capitalismo de Estado, mas ao seu serviço, como regulador dos mercados, beneficiando sempre quem tem mais. A mais-valia criada pelos trabalhadores, serve para enriquecimento dos capitalistas e, também , para sustentar a máquina estatal, que ao cuidar dos lucros do Capital, vai ao mesmo tempo oprimir os trabalhadores e provocar o aumento do valor dessa mais-valia.
                      Quando o sistema saturar (o neo-liberalismo actual, não passa de um passo atrás no sistema capitalista, para evitar a queda do Estado e do sistema), os trabalhadores assumirão o poder no Estado e na economia, e o capitalismo de Estado, será transformado, deixando de sustentar o Capital com a mais-valia, para utilizar esta, no bem social, ou seja, devolvendo primeiramente em bens, aquilo que não é pago directamente, seguindo depois numa fase mais avançada, a devolução em salário (se fosse a dar em salário logo no inicio, seria impossivel fazer corresponder a produção às relações de produção, ou mais concretamente, a procura com a oferta, entrando em ruptura. Esta questão, é uma das mais importantes no socialismo, e está na base de muitos desentendimentos no pós colectivização na URSS, opondo os chamados stalinistas aos revisionistas, e servindo de base ao esquerdismo e agora ao que chamo de neo-oportunismo, proveniente do esquerdismo. Ao transformar precocemente os Fundos de Consumo em salários melhorados, os revisionistas criaram uma contradição fatal: dinheiro nos bolsos do povo e prateleiras vazias nos supermercados.
                       Ora, como a economia é global, estes neo-oportuniostas, consideram a Revolução Global, mas esquecem diversos factores de primeirissima importancia:
                       Se existe uma economia capitalista global, não existe um país global. Não existe uma moeda global (na UE há uma moeda, mas não há, industria massiva, seja, Classe Operária). Não existem partidos na totalidade dos países. Não existe uma internacional comunista, que coordene um movimento global da CO. Há países, onde cuja mentalidade dominante, ainda é a medieval ou pouco mais. O avanço económico de alguns países, é de tal maneira superior a outros, que há fome e doenças próprias de há séculos atrás. Enfim, factores que impossibilitam na prática, a revolução Socialista. 
                       Vivemos num mundo, dividido em países e até nações, que o poder medieval e burguês nos impuseram, portanto, o mundo no seu conjunto, necessita ainda dos três tipos de revolução: burguesa, democratica popular e socialista.
                       O link apresentado acima, portador de um documento pretensamente de análise marxista, é bastante revelador deste neo-pensamento, atrofiador de ideias dialécticas, e que pretendem no fundo, levar as massas ao engano e prolongar no tempo o poder da burguesia.
                       Na impossibilidade de rebater a teoria marxista, por ser a análise correcta, dialéctica, das sociedades, utiliza-se a própria teoria de forma mutante, quando ela serve apenas, para acompanhar, demonstrar e auxiliar correctamente o desenvolvimento social, esse sim, em movimento transformista constante.

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por docarlos.blogs.sapo.pt às 23:43


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