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docarlos



Terça-feira, 25.04.17

UNIÃO SOVIÉTICA 1929 -1953/56

                        Preambulo
                        
                        Se queremos aprender com os erros, e com os êxitos, temos de obrigatoriamente de analisar dialécticamente os factos, sejam eles quais forem. Uma análise desapaixonada à luz, da história, da luta de classes, da cultura, da espiritualidade (sem esquecer o importantíssimo pormenor do seu atraso relativo à materialidade das relações presentes).

                        Para analisar este período histórico da União Soviética e, por consequência, de toda a humanidade, será extremamente importante, saber com exactidão o período precedente após a Revolução de que se celebra este ano o centenário e, também, todo período que se seguiu à morte de Estaline, principalmente após o XX Congresso do PCUS que legitimou Nikita Kruschev no poder.
                        Três períodos importantes da História da humanidade, em que no curto espaço de tempo de 74 anos, a mesma Revolução, passou de pretensões socialistas e deu «.......Passos Atrás», ao Socialismo e à recuperação capitalista, por capitulacionismo do sistema. É no que se passou, com Lenine antes, e no durante com Estaline, que podemos compreender o último período em que o socialismo caiu, desmoronando-se como um castelo de cartas.

                        Democracia Popular Soviética - economia socialista vs capitalista. 

                        Culminando um curto período revolucionário burguês - Fevereiro a Outubro -  o proletariado russo com Lenine na vanguarda do Partido bolchevique, toma o poder em Outubro, colocando assim a cereja no topo do bolo, visto que os Sovietes eram maioritariamente compostos por proletários (sovietes ou assembleias votados e organizados em pleno período burguês, o que desmente muitas teorias que dizem impossibilitar estas organizações democráticas com a vigência burguesa). Entendia Lenine, o grande prático da filosofia marxista, que estariam reunidas as condições criadas com o capitalismo, para se avançar com a Revolução Socialista na construção do Comunismo, o que se revelou pouco tempo depois, impraticável, não só pelo atraso crónico do capitalismo russo (curiosa comparação possível com o nosso), como pela consequente ideologia dominante, que não só, não era burguesa, como em muitos aspectos, era ainda feudalista.
                        Lenine compreendeu então, a mensagem fundamental de Marx, de que o capitalismo tinha de gerar no seu seio todas as contradições possíveis, para assim assegurar uma passagem victoriosa ao socialismo, tal como todas as tentativas burguesas antes de 1789, tinham falhado, por não estarem reunidas essas condições (Em Portugal, foi tentado a passagem ao capitalismo em 1383/85, portanto, 400 anos antes da Revolução francesa e 440 antes da victoria liberal, e em Inglaterra, nunca foi conseguida, tendo sido sempre uma estranha aliança entre burguesia e nobreza, apesar do domínio dos primeiros). Também na Rússia revolucionária, o falhanço económico foi uma constante: guerra civil, falta de estruturas fabris, depreciação da moeda, boicotes ocidentais, estrangulamento da agricultura, etc.

                       Que fazer então? Passada a ilusão inicial, o Partido chegou a conclusão de que a economia capitalista,  não em todos os seus aspectos, mas nalguns cruciais, como a iniciativa privada em alguma produção e a livre concorrência,  fariam elevar as contradições, desenvolver os meios de produção e a consciência das massas. Era o passo atrás,  para poder dar o passo em frente, com firmeza e determinação. 

                       Assim, reiniciou-se um novo período de economia capitalista, sob a orientação e controlo do proletariado. Uma Nova Política Económica, NEP, que deveria conduzir ao extremar de contradições e à consequente passagem revolucionária ao Socialismo que por sua vez, teria de conduzir ao Comunismo. Esta política económica, com todas as suas consequências estruturais e ideológicas, conduziu o país até aos finais dos anos 20s, altura em que a facção Estaline se impôs no Partido e decidiu dar inicio, ou reiniciar, por considerar estarem maduras as condições, a revolução socialista, com a grande colectivização, principalmente nos campos. É este ponto de viragem, que tem de ser estudado ao pormenor: por estar correcto, ser tardio ou prematuro?! 
                      Como opinião pessoal, com base em aturado estudo da economia marxista, fonte do materialismo histórico, tenho por prematura e, por consequência, assentar numa forte repressão na intensa luta de classes que se seguiu.Repressão,  que fez agudizar ainda mais a luta de classes, que naquela época eram em menor numero do que hoje, tendo por laços entre si, a dependência de milhões de miseráveis, perante uma minúscula minoria que vivia na opulência, muitos ainda, com títulos nobiliárquicos, à custa dos mesmos.
                       Um pormenor que parece arredado do pensar, quer de "marxistas" bem intencionados, quer da pequena burguesia do "socialismo democrático", é o de ignorarem o tempo decorrido entre a revolução de Outubro, e a colectivização, esta até aos inícios dos anos 50s e mesmo o tempo da transformação económica até finais dos anos 80s: 70 breves anos. O que quer dizer, que a uma criança nascida na Revolução, ainda ser possível estar naturalmente viva no fim da URSS. Um Homem jovem, na casa dos vinte em 17, era de meia idade nos anos 40s, no período critico da II Guerra e das grandes convulsões no Partido e no país. Não havia portanto o Homem Novo, educado para o socialismo: continuava a haver burguesia e proletariado, do antes da Revolução.A situação política e a correlação de forças, era a mesma de Outubro, o que impunha uma determinada e resoluta luta, de morte muitas vezes, entre o proletariado e a burguesia. Não podia haver contemplações. Era o nós ou eles!
                       A sociedade capitalista, é um processo económico, onde a burguesia se apoderou e apodera dos meios de produção. Tem a trabalhar para si imensas pessoas a quem paga apenas uma parte do que produzem, apoderando-se da outra, acumulando assim Capital. Só, e apenas quando a luta entre os explorados e os exploradores chega a um ponto de tal modo agudo, em que já não é possível qualquer sobrevivência por parte da burguesia, é que se dá o embate final que faz virar a História, para o estádio seguinte. Enquanto os detentores dos meios de produção, tiverem meios também, de distribuir e apoderar-se da produção, esta viragem é impossível, e se se fizer, está condenada à derrota. A inoportunidade da Revolução Socialista da URSS nos finais dos anos 20s, e a guerra, deram uma nova oportunidade ao capitalismo, tal como agora o sistema financeiro, deu um novo alento, retardando a correspondência necessária, entre a produção social e a distribuição também social.
                      Lembro, que alguém do BE, disse à pouco tempo, que os marxistas podiam gerir bem o capitalismo, melhor do que os capitalistas?! Apesar das inúmeras criticas de que essa afirmação foi alvo, ela é na verdade certíssima. Se alguém estudou o capitalismo, foi Marx; portanto, qualquer bom marxista, pode perfeitamente gerir o capitalismo em toda a sua plenitude, pois sabe perfeitamente os segredos desta sociedade do lucro e da exploração, coisa de que a maioria dos capitalistas, nem sequer tem consciência. Mas Lenine sabia-o, e com esse conhecimento, procurou reavivar e explorar as contradições inerentes ao mesmo.
                      Mas a luta dentro e fora do Partido bolchevique, era intensa. As maiorias favoráveis à política Leninista, eram pouco expressivas, não pelos seus interesses, mas pela sua mentalidade ainda dos tempos czaristas e dos inícios da burguesia. Em qualquer momento, uma maioria virava minoria e vice-versa. Com a morte de Lenine, ainda mais acesa ficou essa luta. Havia luta de classes fora, mas dentro do Partido, a luta era outra: era entre diversas linhas "marxistas", umas traidoras aos ideais, outras apenas apontando diferentes caminhos à Revolução. Estaline, soube gerir, impondo-se e fazendo avançar a Revolução Socialista; para ele e seus partidários, era impossível continuar a política de dois estados económicos dentro de um só Estado (lamentavelmente, o mesmo se veio a confirmar com um Estado socialista no seio de uma comunidade internacional capitalista)
                      E a grande aventura da humanidade, avançou. Durante mais de vinte anos, uma política económica socialista, impôs-se na União das Republicas Socialistas Soviéticas.

                      União das Repúblicas Socialistas Soviéticas    
                                                                                     A questão económica

                      Propositadamente, este subtítulo está a cores diferentes. Porque se entrou objectivamente numa economia que se pode considerar socialista, com uma distribuição social correspondente à produção; por outro lado, a luta de classes fora do partido e a luta interna entre as diversas facções, mais a guerra para defesa do país e do socialismo, fizeram diminuir a democracia soviética, deixando os sovietes quase ornamentais, colocando nas mãos do partido e do Estado, toda a política, quer económica, quer de guerra.
                      Foi esta deficiência democrática, que abriu as portas a uma camada burguesa, herdeira da burguesia e da nobreza, e às facções dissidentes dos comunistas, quer à esquerda, quer à direita, que impossibilitada da victória eleitoral ou violenta, devido à mão de ferro de Estaline e seus companheiros na defesa do socialismo, se começou a infiltrar no Partido, no Estado, nas empresas, na comunicação social, nas escolas, em toda a vida pública. Ajudaram Estaline e, após a sua morte, tiraram o tapete ao partido e ao proletariado revolucionário que ainda restava.

                      Mas como se processou esta política económica socialista? 

                      Em qualquer sociedade, há os que produzem bens de consumo e meios de produção,  aquilo que na gíria capitalista, se chama de agricultura, indústria e indústria pesada, mais os que transportam esses produtos até à consumo: são os camponeses, operários e operadores de máquinas de transporte. Os únicos que dão valor real, que acrescentam valor ao que já tem de outros anteriores. Toda a outra massa populacional, desde comerciantes, banqueiros,  políticos, artistas ou simples assalariados vendedores, de limpezas,  etc., sobrevivem de valor criado pelos anteriores e que não lhes é pago.

                     No capitalismo, tendo em conta que os meios de produção e de transporte, são propriedade privada, os produtores que têm de sustentar os outros, apenas recebem uma pequena parte do que produzem, pois todo e qualquer objecto apenas cobra a si mesmo, o valor nele incorporado. Isto quer dizer que, de 100 objectos produzidos, o produtor recebe p. ex. 50; outros 20 vão para a camada não produtiva e os restantes 30, para o patrão. Assim se acumula capital, quer para investimento, quer para benefício e luxo da burguesia.

                     Ao colectivizar a produção,  o Partido e o Estado Soviético,  expropriaram a burguesia, nacionalizando através do Estado e tornando toda a sociedade proprietária dos bens nacionais, assim passando a beneficiar de toda a produção.  Nisto, quem perdeu foi a burguesia,  passando o proletariado, produtor e não produtor, a beneficiar da parte a que se chama lucro ou mais valia, que ficava em poder da burguesia.

                    Prevê-se, segundo Marx e Engels, que no comunismo, a sociedade seja auto reguladora, não se produzindo mais nem menos do que o necessário, estando neste necessário,  incluído todo o avanço do progresso das sociedades a todos os níveis.

                    Mas em socialismo, etapa de passagem do capitalismo para o comunismo, onde a luta de classes e demais contradições entre classes e subclasses continua, esta não pode ser auto regulável por incapacidade ideológica e logística. É aqui que o Estado, como componente principal da superstrutura social, tem um papel essencial na actuação estatística, programática,  produtiva e, essencialmente, distributiva. Não se trata de capitalismo de Estado, como os detractores do socialismo o pretendem classificar, mas de um meio de gerir as relações de produção.  Capitalismo de Estado, é aquele que a maioria dos países capitalistas, desenvolvidos ou com implantação forçada,  como a fascista, utilizam por incapacidade a partir de certa altura, de investimento e segurança do sistema ( p. ex., incapacidade para a construção de uma autoestrada ou de desenvolver uma guerra de agressão,  longe de portas) embora depois os lucros da autoestrada e os despojos de guerra, sejam para benefício do Capital; pagam todos, lucram alguns. Portanto, capitalismo de Estado, é este a trabalhar para que o Capital beneficie ainda mais, da mais-valia.

                    Sabemos que Lenine, classificou os inícios do socialismo, como capitalismo de Estado, mas também temos de saber distinguir esta expressão simplista, indicadora de que esta estrutura supra social, se apoderaria da mais valia ou sobre produto, gerindo depois em benefício da sociedade, da verdadeira indicação marxista, sobre capitalismo de estado, onde este é um mero instrumento do Capital. O grande revolucionário, nunca chegou a saber, que a sua expressão simplesmente comparativa para melhor compreensão dos revolucionários e das massas, acabou por servir os detractores da Revolução. 
                    Estando ciente de que as ideias são reflexo do mundo que nos rodeia, de que, portanto, nunca ganharemos consciência social (a revolucionária e solidária, ganha-se na luta), se os meios de produção e a distribuição não forem feitas de maneira correcta, que no socialismo é a de «a cada um segundo a sua contribuição», em aposição ao comunismo, em que «cada um receberá consoante as suas necessidades, independentemente da sua contribuição», o Partido e o Estado soviético, começaram por distribuir as mais valias ou sobre produto socialista, em bens e serviços: uns gratuitamente, outros apenas cobrando os preços de custo ou ainda menos. Assim, se formou uma sistema de Saúde e Educativo gratuitos; habitação universal, consoante os rendimentos; transportes a menos que o preço de custo; aquecimento, pão e carne, igualmente abaixo do preço de custo, etc. Caros, ou com cobrança lucrativa, tudo o que seria considerado, não de luxo, mas acima das necessidades primárias. Sendo portanto, as ideias, o reflexo do mundo que nos rodeia, isso quer dizer que um Homem, tendo dinheiro mais ou menos fácil para se sustentar e à família, seja com um bom salário, ou com fundos subsidiários, de desemprego, ou mais recentemente com o sistema de crédito ao consumo, etc., cai sempre na tentação de abandono do trabalho, deixando este de ser uma necessidade, para ser um "frete", levando portanto, no conjunto da sociedade, à abstenção produtiva e à falência de um país. Tendo em conta que o Capital. a partir de certa altura, quando as taxas de lucro são diminutas, algo muito bem explicado no "O Capital" por Marx com a tendência geral da baixa da taxa de lucro, e quando já tem a barriga cheia e se entrega apenas à especulação financeira, deixa de investir na produção, encarregando os grandes grupos económicos dessa operação, geralmente nos países de baixo custo da mão-de-obra, de cariz imperialista, é isto que sucede nas sociedades capitalistas.
                     Assim, o Estado soviético, teve a preocupação de: 
                     Pleno emprego (habituação ao trabalho e rendimentos condizentes as necessidades extra produtos gratuitos).
                     Evitar as importações desnecessárias e consequente endividamento, mais dependência ao exterior.
                     Tempos livres, para a pratica desportiva (quase universal para os indivíduos saudáveis), estudo e demais interesses culturais.
                     Fomentar uma cultura individual, baseada na musica, dança, jogos de tabuleiro, literatura, cinema, teatro, opera, circo, pintura, etc.
                     Incutir o espírito colectivo, com a participação nas Forças Armadas e na solidariedade pelos outros povos, e naquilo que acabou por falhar por causa da Guerra e da violenta luta de classes: a discussão permanente dos problemas do país.
                     A colectivização, principalmente nos campos da Ucrânia onde a mentalidade era muito retrograda, provocou o caos na distribuição e na própria produção, quer com as falhas de organização, quer com os boicotes a que a burguesia e a nobreza sujeitaram o que ficava, com incêndios e destruição e, a guerra revolucionária. Em consequência, a fome e as doenças fizeram uma grande devastação, embora não tanta como a que a propaganda ocidental faz crer. A provar as mentiras fabricadas pelos espertos pseudo intelectuais politicólagos dos EUA e da Inglaterra, imediatamente secundados por lambedores fascistas e afins do resto do mundo capitalista, está o crescimento económico na casa dos dois dígitos, tanto na industria, como na agricultura e, o mais importante do ponto de vista humano, apresentado pelos média, como um holocausto, um genocídio do Estado Estalinista sobre o povo ucraniano: o crescimento demográfico (,http://www.horadopovo.com.br/…/s…/2704-24-09-08/P8/pag8a.htm) (artigo muito interessante) que a ser verdade a perda de sete a dez milhões de pessoas, equivalia a que as mulheres nascidas na Revolução de 17, as únicas a ter cem por cento de capacidade para engravidarem, teriam de ter cinco, repito, 5 filhos cada, o que não só é estatisticamente impossível, como cientificamente, está provado, que a industrialização massiva, tal como a instrução/educação, reduzem a natalidade. Para além disso, nunca esquecer que pela URSS, passou a mais terrível Guerra de todos tempos e, que só aí, se perderam 20 milhões de pessoas. Os dados dos censos de 1926 e 1937/39, não são  fiáveis , devido às convulsões internas do país.

                     Com a distribuição alicerçada nas mais valias da produção  intermédia, inclusive dos meios de produção e dos impostos a eles cobrados às  empresas e incorporados no retalho, o investimento foi constante, feito à  medida de uma nova formula de política económica, os Planos Quinquenais, onde os serviços de estatística mais as necessidades primárias, eram a bitola para que não  houvesse superprodução, origem das crises sistémicas do capitalismo, e onde as necessidades básicas, sempre em crescendo, fossem supridas numa ordem prioritária. 

                      Por sua vez, se analisarmos as finanças publicas pelo lado capitalista, não havia défice, devido a emissão  de moeda dentro dos parâmetros dos Planos Quinquenais, como não  havia superavit ou lucros finais, tal como funcionam as sociedades de interesse publico, com despesas obrigatórias em balanço  equilibrado com as receitas.

                      A velocidade de crescimento, que em alguns anos, foi de cinco a dez vezes superior ao dos países capitalistas, não  intervenientes ou destruídos pela guerra, elevou a URSS de um crescimento lento, de saída  do feudal para o capitalismo a que a NEP a conduzia e de destruição, a segunda potência mundial só  ultrapassada pelos EUA, que como sabemos, não  teve guerra no seu território, e ainda beneficiou da "ajuda?" a outros países, que deles ficaram reféns, tornando-se numa potência  imperialista. 

                       Nunca um país, criou, tantos doutores em diversas áreas, tantos engenheiros, tantos e tão  bons atletas, tanta habitação,  tantos transportes públicos, tantos centros de saúde, tantos intelectuais....Por falar em intelectuais, é  altura de fazer uma breve passagem pelos famosos Gulags, ou campos de concentração por lá  conhecidos e tratados, como colónias ou sanatórios de reabilitação. 

                       Dispostos estrategicamente no chamado meio do nada, eram no inicio campos com barracões, que devido as distâncias  da chamada civilização e ao inóspito meio envolvente, não  necessitavam de barreiras ou guardas (quem morreu, foi por impossibilidade de continuar uma fuga começada, ou por alguma doença  não tratada urgentemente) que a pouco  e pouco, se foram transformando em aldeias e estas em cidades. Foram feitas pelos seus utilizadores, como principio básico de reeducação pelo trabalho. De lá  saíram homens e mulheres formados, intelectuais de grande nomeada, quer para o socialismo; quer para o outro lado da barricada, sendo depois acolhidos no Ocidente, com o pomposo titulo de "dissidentes": Mas a maioria, ficou e alinhou com a Revolução. As muitas mortes, que as houve, foram no inicio, mas que depois na medida que iam criando os meios de sobrevivência, foram eliminadas, chegando alguns campos, a terem médias de idades superiores às  de grandes centros.

                     Esta fórmula de distribuição da riqueza, sem elevar os salários,  mas dando-lhes sustentação na baixa periódica dos preços, negando assim a possibilidade subjectiva de abandono do trabalho abrindo portas ao défice produtivo em favor das importações,  foi a mais inteligente  economia posta em prática e ao serviço, pelo homem e do homem, só possível como resultado de uma análise marxista da espiritualidade humana, e que põe em relevo, a lei fundamental do materialismo histórico/dialéctico,  de que é a matéria, o desenvolvimento dos meios de produção e a sua correspondência funcional com a distribuição, relações de produção, que originam as ideias, e não a ideia que precede a matéria. 

                    Defendem alguns que em socialismo, as empresas e os seus trabalhadores, têm de ser autónomos, com a participação constante dos trabalhadores nas decisões sobre produção e repartição dos resultados. Será isto possível? Sim, até é, mas as empresas teriam de ser únicas num determinado espaço político/geográfico, ou seja, p. ex., em Portugal, deveria só haver uma fábrica de cimento, uma de conservas, uma de camisolas, uma cerveja, etc. teria de haver uma só herdade a produzir peras, outra melão, outra trigo, etc. como resultado, nenhuma teria espaço nem estruturas para acudir às necessidades do país, para além de que, uns produtos renderiam muito mais do que outros, desnivelando progressivamente o poder económico dos trabalhadores de uma produção para outra, ou seja, o inverso do que é desejável no socialismo, a convergência de capacidade económica.
                    No caso de haver mais do que uma empresa produtiva no mesmo sector, então, embora os trabalhadores pudessem dividir entre si os "lucros" ou sobre-produto, elas passariam a competir entre si, o que em breve tempo, transformaria um capitalismo individual, num capitalismo de empresas cooperativas, com todos os inconvenientes daí advindos, especialmente na sobre-produção e crises.
                    Será isto, na realidade, socialismo? Torna-se evidente que não. Poderia ser no inicio, mas nunca seria o caminho para o comunismo. Seria a utópica anarquia.
                    Foi isto, este saber económico, que levou os dirigentes soviéticos, a ter o Estado, como panificador e mediador entre empresas e cooperativas, tal como manda o marxismo: Revolução, tomada do poder, transformação do Estado burguês em Estado proletário. A diferença, está no sempre crescente poder do estado burguês, como meio repressivo e económico, mesmo no liberalismo, e a progressiva destatização do Estado proletário, ate ao seu desaparecimento total no Comunismo, dando lugar a uma auto regulação das relações de produção.
                    Pois bem, se houve uma distribuição da riqueza, onde sem excepção, todos recebiam as mais valias ou valor do sobre-produto, sem prejuízo das diferenças salariais emanantes da contribuição de cada um, que dava acesso a umas tantas regalias, como o caso de maior número de roupa e de melhor fabrico, possibilidades de viagens para qualquer ponto da URSS, ou cobria necessidades não prioritárias, como o automóvel ou 2ª casa (Datcha) numa região de férias. Tudo isto, sem descriminação, quer fossem os beneficiários, de origem proletária ou burguesa, desde que participassem com o seu trabalho para a construção do novo país. Pode-se considerar sem dúvida, que economicamente, a URSS era Socialista. 
                    Então, temos um problema para resolver, pois muitos marxistas dizem que a URSS ou qualquer outro país, nunca foi ou foram socialistas; quer dizer, nunca construiram o comunismo, conforme o materialismo histórico. Não! A União Soviética, foi economicamente socialista. Como escrevi mais acima, qualquer outra forma económica de distribuição da riqueza, conduz inicialmente a um aparente socialismo (ilhas, isoladas socialistas), seguindo-se a anarquia e mais tarde, o regresso ao capitalismo; conquanto se for a nível nacional, de Estado, com envolvimento social global, arrastará outros atrás de si e terá tendências para a unificação, só possível quando o socialismo for total e, primeiro países, depois regiões, continentes até ao Planeta, e chegar ao estabelecimento do Comunismo, que será o último estádio da humanidade, mas não no Universo, porque se formos a acreditar nisso, então estaremos a negar a evolução histórica.

                    Vamos ao problema, que nega o desaparecimento, o esfumar do socialismo, como alguns dizem para negarem o mesmo, mas justifica a sua derrota. Sim, porque haver e ser derrotado é uma coisa, daí o regresso ao capitalismo, e não haver, é outra.
                              «« Enquanto o capitalismo e o socialismo existirem, não poderemos viver em paz.
                                                    No fim, um ou outro terá de triunfar
                                                    – um requiem será cantado sobre a República Soviética ou sobre o mundo capitalista.»»
                                                                                         "Lenine"

                                                                                                         A questão política na URSS socialista

                   Alicerçada nos sovietes, a política proletária de Lenine e da URSS, transitou deste, da NEP, para a colectivização de Estaline. Se considerarmos prematura esta reentrada no socialismo, poderemos facilmente,  imaginar as convulsões internas de toda a União Soviética.  Convulsões, fora e dentro do Partido, com as diversas facções em luta permanente, tanto à direita como à esquerda, onde só muito a custo, Estaline e os seus colaboradores fiéis, se conseguiam impor. Tiveram de ser usados meios coercivos extremos, que obrigaram à perda de excelentes quadros à esquerda (à direita não teve influência negativa), que deixaram o Partido e o Estado vulneráveis a uma nova táctica adoptada pela burguesia, devido à repressão violentíssima que se abateu por sobre tudo o que era anti socialismo. Táctica essa, facilitada pela necessária abertura a todos a quem interessava vencer o inimigo comum, que entretanto mostrara ao mundo e aos cépticos, que o interesse principal era acabar com o país dos sovietes: o nazismo. 
             Pouco a pouco, de mansinho, integraram-se nos sovietes, no Estado e no próprio PCUS. Estudaram e compreenderam o marxismo em todo o seu ser, alinharam com "améns" nas propostas feitas pelos marxistas do partido, e muito naturalmente, começaram a saber como seria possível anular os efeitos económicos de umas relações de produção, baseadas na propriedade social gerida pelo Estado e numa distribuição do sobre produto da produção intermédia. 
             O estudo dialéctico da mentalidade ocidental, fez essa burguesia inflitrada, sobrevivente da Revolução de 17, compreender como ninguém que aquilo que Estaline tinha feito, ao não dar dinheiro, mas bens e serviços, era o oposto e estava a criar uma nova mentalidade no país, estando a criar um Homem Novo. Sabiam esses, não traidores porque nunca foram "comunistas", mas sabotadores, que Estaline, como qualquer ser vivo, não era eterno, tal como os que o rodeavam, teria e teriam de deixar o poder, abrindo as portas a essa, sim, traição a uma nova sociedade.

             Essa traição à nova sociedade proletária, começou de imediato à morte de Estaline com o afastamento, prisão e até morte dos companheiros fieis do grande líder soviético, mas só em 1956, no XX Congresso, foi solidificada, começando aí a caminhada para a destruição daquilo que de mais bonito se fez em termos sociais até agora.
             
                                               O pós Socialismo e a queda da pátria proletária

            Sob a batuta de Nikita Kruschev, começaram as grandes "denúncias" do terror "Estalinista", donde sobressaíram os Gullag e o genocídio pela fome  na Ucrânia, de que já falei, mas agora acompanhados da questão do acordo com Hitler da divisão da Polónia, e de mais um crime de guerra, Katyn. Entretanto, com uma mão, impediam o proletariado de sair da URSS, e com a outra permitiam a intelectuais, desportistas e artistas fazê-lo, beneficiarem do mundo de ilusão ocidental, voltar e propagandear essa ilusão.
             Mantiveram as ajudas, materiais e ideológicas ao movimento comunista internacional e a todos os movimentos de libertação. Começaram a jogar mano a mano com o imperialismo nos jogos de guerra. Criaram uma comunidade económica, não imperialista, complementar, com os outros países que entretanto, saídos da Guerra, tomaram o caminho que eles próprios consideravam socialista, comunidade complementar essa, que garantia a sobrevivência de muitos sectores económicos dentro desse espaço. Mas o "melhor!?" ou pior, ainda estava para vir, ou seja, o jogo sujo da ilusão da fartura capitalista. 
             Mantendo certos serviços básicos, os novos dirigentes da traída Revolução, começaram a deixar de investir, dando os dividendos das mais-valias intermédias, directamente ao proletariado. 
             (se num país socialista tem de haver equilíbrio entre o dinheiro em circulação e os bens produzidos ou importados sem criar divida - importação contra exportação - num processo lento de crescimento, mas sustentado, num país capitalista, os bens produzidos são em número muito superior ao poder económico da população trabalhadora, a que eles chamam de concorrência. Daí, as crises por que passam os trabalhadores nos países capitalistas, ser a de verem as prateleiras cheias e os bolsos vazios, só podendo adquirir bens, por crédito)
      Então, começou a grande maratona. Tão grande que foram necessários mais de trinta anos, para que a mentalidade do Homem Novo soviético, habituado a sacrificar-se, mas consciente de que estava a crescer com os pés bem assentes no chão, começasse a ocidentalizar-se, exigindo cada vez, mais diversidade e mais qualidade no mercado de venda a retalho e noutros bens não necessários. 
             Com os bolsos cheios, e juros baixos pagos em banca, o país começou a importar bens, como automóveis de diversas marcas ocidentais, televisores, a abrir Hotéis de diversas estrelas, aquecedores  eléctricos quando existia lenha e carvão suficientes para aquecimento, etc.
             Ora, quem ia importar se o Estado estava a ficar sem dividendos? Os privados não existiam e o povo sem organização, por os sovietes terem passado a ser parlamentos figurinos políticos. As prateleiras começaram a ficar vazias, e os bolsos pesados. Os bens importados começaram a ter lista de espera, que começou a ser aproveitada pelos dirigentes e amigalhaços, abrindo portas a outro flagelo da sociedade capitalista, a corrupção.
              De corrupção em corrupção, de abertura em abertura, no final dos anos 80s, setenta e picos anos depois da Revolução proletária, caiu o maior país do mundo. Mas, a provar o Socialismo, o Real Socialismo dos tempos de Estaline, embora fosse a precariedade da sua instituição, a verdadeira responsabilidade do sucedido, ficam duas coisas: a justeza da distribuição da riqueza, em contra ponto com a injusta após o XX Congresso e, a dificuldade que a burguesia condutora do processo teve ao longo de trinta anos para a fazer ruir, para além do respeito que a Revolução granjeou por todo o mundo, e que ainda hoje marca a posição do neo capitalismo instalado na Rússia.
               

               Uma nota final sobre a precariedade da colectivização. 
               A Nova Política Económica de Lenine, embora justa e necessária, estava a conduzir o país para uma situação de emergência, que a burguesia sob a vigia do proletariado, estava por um lado a sabotar, e por outro, o próprio proletariado com sovietes e partido altamente divididos, estavam a ser incapazes de conduzir (algo que hoje seria mais fácil aos marxistas, devido à experiência acumulada no mundo capitalista mais atrasado)Portanto, Estaline e seus companheiros, tiveram de tomar uma opção, e essa, foi a considerada melhor. 

                        
               PS) A principal fonte de pesquisa, foram os trabalhos deTatiana Khabarova, obras de Lenine e Estaline, A História da URSS, obras de Karl Marx e fontes estatisticas russas, para além de textos já publicados por autores anónimos ou quase, na imprensa e nas redes sociais.

                         

                         

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por docarlos.blogs.sapo.pt às 09:40


1 comentário

De docarlos.blogs.sapo.pt a 25.04.2017 às 15:37

O que falta na História, é a análise da influência exterior ao desenrolar dos acontecimentos na URSS, o que terá de ser feito à parte, visto que os erros partiram de dentro e somente tiveram o auxilio da burguesia ocidental. Se não se tivessem cometido os erros na questão democrática dos sovietes, nada disto teria acontecido e, aí sim, ou a URSS tinha vencido ou o Capital internacional tinha intervindo pela violência. Não é por acaso, que ao mais pequeno sinal de revolução, eles agora actuam. O medo que se volte a constituir um país de sovietes é muito grande.
Com este Post, apenas quis mostrar que na questão económica, a URSS era Socialista, ao contrário do que muitos dizem. Caiu por questões de relaxamento politico devido a diversos factores, entre eles, dois que sobressaem: colectivização cedo demais e falta de discussão devida à Guerra.
Resumindo, faltaram ao longo de todo o tempo, condições de consolidação da economia socialista praticada.

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