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docarlos



Domingo, 12.04.15

DEFENIÇÕES SOCIAIS, HISTÓRICAS E CLASSISTAS DO MARXISMO

                       Resposta estrutural sobre definição marxista do materialismo histórico.

                       De uma maneira simplificada, não muito longa, precisa, dialéctica, portanto, fundamentada na ciência histórica, tentarei responder em simultâneo, a dois navegantes do facebook, justificando assim, aquilo que considero ser a interpretação correcta do desenvolvimento histórico, agora que a sociedade nos países mais desenvolvidos, se modificou radicalmente em relação à dos finais do século XIX.

                       Diz-nos o materialismo histórico, que a evolução do Homem e das sociedades, está dependente da evolução dos meios de produção e, das relações daí decorrentes. Diz-nos Karl Marx, que a separação da sociedade em classes, se deve à apropriação por alguns, do trabalho de outros, ou seja, que há um período da jornada de trabalho, em que o trabalhador ou produtor, não recebe a paga da sua produção, e que essa parte, é então posta no mercado, sendo o valor recebido, que é igual ao que é pago ao produtor, utilizado em beneficio exclusivo do capitalista (nos tempos da escravatura e do servilismo, era identico): é o chamado lucro ou, mais-valia.
                       Isto quer dizer, que existem profissões, que já existiam no século XIX e outras que foram e vão aparecendo, que nada acrescentam, quer material, quer intelectualmente, aos produtos transácionáveis de consumo, simples adorno ou coleccionáveis. Profissões essas, que vivem da parte que o capitalista tem de ceder da mais valia criada pelo produtor, sobressaindo delas o comércio, banca, saúde, educação e, toda a questão cultural que serve de elienação às próprias massas, a que se pode chamar, cultura de consumo. Para além do atrás descrito, que faz parte do dia a dia e, tido como necessário, a mais-valia em conjunto com os impostos directos e indirectos, pagos por todos, ainda sustenta os politicos, as Forças Armadas, a Segurança Interna e toda uma máquina que serve essencialmente, para manietar, reprimir e esmagar os trabalhadores de todos os sectores (parece mentira, mas é verdade: o trabalho não pago e o pago, paga a repressão sobre os próprios pagantes).

                       Portanto, pode-se e deve-se do ponto de vista materialista, dialéctico, partir da suposição que tudo gira à volta da economia. Que sem politica económica, não teriam existido estádios sociais, desenvolvimento, classes e toda a estrutura politica, social, cultural e respectiva alienação daí decorrente. Resumindo, se queremos mudar tudo isto, temos de mudar as relações de produção, fazendo corresponder a destribuição à forma social produtiva: Revolução Socialista. As revoluções, em todos os periodos históricos, são a prova cabal de que é obrigatório mudar o sistema económico, para que haja progresso social.

                       Mas......
                       ......vivemos num mundo dividido, e com diversos estádios civilizacionais. Como o planeta, não é país único, onde a Classe Operária com o seu Partido de vanguarda, comunista, marxista, conquiste o poder, arrastando consigo toda uma massa de trabalhadores proletarizados, que imponham a Ditadura do Proletariado até acabar com as classes sociais, uma classe operária global capaz de sustentar todo um planeta, temos de nos cingir às divisões a que as classes poderosas do antigamente e de agora, nos mantêm. Uma dessas divisões, chama-se Portugal (e aquilo que é valido para Portugal, é-o para praticamente todos os países da antiga Europa capitalista, América do Norte e alguns asiáticos).
                       Se o mundo vive do que é produzido pelos trabalhadores industriais, operariado agricola e distribuido pelos proletários dos transportes, onde estão eles em Portugal? Onde estão as grandes massas de operariado industrial? Não existem. (não existiam no Verão Quente de 75, muito menos agora).
                       Então, do que sobrevive o país? Do comércio essencialmente, que transaciona o importado, porque cá não se fabrica.
                       Onde está a classe operária? Nas pequenas unidades industriais, dispersas de Norte a Sul, e nalgumas poucas médias concentrações.
                       E o proletariado agricola? Não existe, senão sazonalmente e no Sul, pois no Norte, mantem-se a pequena parcela de subsistência.
                       E os trabalhadores dos transportes de mercadorias? Andam por aí, acarretando essêncialmente produtos importados, ou seja, acrescentando valor do trabalho, que vai encher os bolsos dos capitalistas estrangeiros.
                       Vamos fazer uma Revolução, com quem? Com uma classe de assalariados do comércio e FPs, e trazer uma classe operária diminuta atrás, ou seja, ao contrário do que deveria ser? O maior contigente proletário do país, vive das mais-valias operárias; não detem o poder da economia. O Partido Comunista, até pode ser pequeno; desde que seja constituido por revolucionários armados de teoria não interessa o número, mas o que realmente interessa, é o número de operários que movimenta, e que terão em si a dificil tarefa de sustentar o país, pelo menos no mais possivel, de maneira a enfrentar o monstro internacional que se vai abater sobre Portugal.
                       Esta observação, é a geral, nacional, mas temos ainda a sectorial, cuja situação estrutural, torna uma revolução de cariz socialista imediata, impossivel: vejamos.
                       Vão-se pôr os trabalhadores a controlar ou intervencionar, uma unidade fabril com 50 operários, ou menos? Isso foi o que a estrema esquerda fez em 1975, deitando a perder a correcta intervenção estatal e dos trabalhadores, nas grandes empresas.
                       As PMEs produtivas, estão hoje grandemente viradas para a exportação de artigos de luxo ou alimentar de qualidade. Se as intervencionarmos, sofrerão de imediato boicotes e, a falência é certa.
                       A maioria esmagadora das PMEs nacionais, têm lucros tão baixos, que não têm a minima possibilidade de crescer, de se tornarem em grandes empresas, muito menos em monopolios, tendo de fazer grandes esforços para não serem engolidas. Os seus interesses, estão de tal maneira ligados e próximos dos dos seus operários, que qualquer intervenção mais profunda nos grandes monopólios, será muito mais benéfico para elas, do que um mercado liberal.

                       Mas façamos a Revolução.
                       Sem produção que alimente as necessidades internas, pelo menos até ao limite que possa ser superavel pelas exportações (equilibrio da balança), não há revolução socialista, que resista.
                       Precisamos urgentemente, de meios de produção, industria pesada, fabrico de máquinas, pois é por aí que se tem de começar a destribuição social; ou querem manter o mercado como está e dar salários, para comprar "ar"? (foi assim que morreu a URSS). Quem nos fornece numa Revolução isolada? Tem que se começar por oferecer serviços baratos e em condições, para que o dinheiro renda nos bolsos e se possa adquirir importados não de 1ª necessidade, porque estes, têm obrigatoriamente de ser fabricados dentro de portas.
                       Quais os países socialistas, com os quais podemos contar em termos de ajuda? Cuba? Vietnam?...., esses são mais pobres do que nós. Deles, só a solidariedade ou algum técnico. China? Não, ainda estão numa revolução democratica popular, no meu entender, porque geralmente acusam de ser capitalismo selvagem. Já não existe a União Sovietica, mesmo aleijada.
                       Ideológicamente, estamos preparados?
                      Temos um PC, dos melhores do mundo, muito activo, com análises correctas. Com muitos militantes de grande militância, mas pouca bagagem teórica para o tamanho que tem, devido à entrada livre após Abril. Se não fosse a grande formação moral dos mais bem formados ideológicamente, estaria confirmada a mentira muitas vezes divulgada, da falta de democracia interna. Aliás, é essa alta formação ideológica de alguns e a influência natural dos marxistas nas decisões colectivas, que parece tirar democracia às discussões internas. Só a militância, participação e ausência de ambição pessoal  dos seus militantes, mantêm inalterada a coesão interna.
                       E como se sente um povo proletário, que não produz? Terá força animica para a tomada do poder, quando o seu mal, são apenas salários baixos e não roubo de produção? Será que com uma burguesia "estúpida", que nunca soube tomar o seu lugar, mas que aprendeu com os seus algozes nobres e clericais o conservadorismo explorador, ao ponto de ter uma politica fascista sem que objectivamente tivesse disso necessidade, temos um inimigo que sirva de alvo a abater? Será que a consciencialização religiosa cristã da maioria esmagadora do nosso povo, deixará campo ao materialismo revolucionário? 
                      Onde está um ensino, verdadeiramente livre de alienação, que prepare os nossos jovens, para uma vida diferente? Não existe. Todos saem da escola, com ideias fixas no individualismo, egoísmo, no atropelo dos outros, na lei do mais forte.
                      Qual a solução: Revolução Socialista? Esperar pela auto-queda do capitalismo? Ou fazer uma Revolução Democratica Popular? 
                      Ou ainda, como pretagoniza uma corrente marxista, nada disto, e como primeira etape de uma Revolução, consciencializar as massas?
                      Pois bem: não há condições para a Revolução Socialista, como economicamente o demonstrei acima. Se esperarmos pela auto-queda do capitalismo, adormecemos, porque se é uma verdade que cairá sozinho, no entanto, quando isso acontecer, não restará nada em que pegar para fazer avançar a sociedade: seria uma regressão.
                      Consciencializar as massas!, como? Cursos intensivos de marxismo? Sessões de esclarecimento em tudo o que é freguesia, fabrica, etc? Trazer todos os proletários ao Partido marxista? Bater de porta em porta, como fazem algumas confissões religiosas? Não!
                      As massa só se consciencializam na luta, na preparação da Revolução Socialista. antes, terá de se arranjar condições para isso, e a única possivel, é uma Revolução Democratica Popular, que é como quem diz, uma tomado do poder por todas as camadas sociais exploradas pelo grande Capital e, que detêm em seu poder, os meios económicos da produção, que em Portugal e no Ocidente em geral, são os operários, claro, mais tudo o que vende a sua força de trabalho e, todos aqueles que estão ligados a este proletariado, que de uma maneira geral, pelo menos nos paises mais pobres, são a pequena burguesia industrial, camponesa e comerciante.
                     A querer a Revolução já, é estar a condenar o país a mais outro tanto de sacrificio, como ficou provado em Novembro de 75, quando os MRPP, UDP/PCPr e outros m-l, deram um passo maior do que a perna, imediatamente aplaudido pella burguesia, que assim teve a chance de provar aos incautos, que era impossivel viver com os comunistas, que a única coisa que sabiam fazer era, destruir, roubar a santa propriedade privada.
                     É possivel tomar o poder, em conjunto com diversas classes sociais. É possivel controlar os meios financeiros, e as grandes empresas industriais e propriedades agricolas, mas nunca controlar as pequenas empresas industriais, agricolas ou comerciais. Temos de ser realistas, nunca aventureiristas ou espectantes como o Bocage, que andava de pano às costas à espera da última moda.

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por docarlos.blogs.sapo.pt às 15:15



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